Caminhos Errantes

sábado, abril 22, 2006

Kat-echein



Não há acção humana na história, não há história propriamente dita, que não se traduza em perturbar o percurso do ritmo monótono de Chronos. Agir historicamente é acelerar ou travar a história. E se o cunho da nossa história hodierna consiste no encontro com o seu próprio fim, se este "fim da história" se traduz no advento de sociedades sem futuro, despojadas da possibilidade de serem um outro do que aquilo que são, se esta se caracterizam especificamente pela unidade entre futuro e utopia, é na figura paulina do katechon - a figura de uma força misteriosa capaz de de-ter (kat-echein) os tempos, prolongando-os indefinidamente e atrasando o advento definitivo do seu fim - que se encontra o inevitável pólo que se lhe contrapõe. To gar mystêrion êdê energeitai tês anomias (IITes.2,7). Há na própria dinâmica de um tempo em constante aceleração um "mistério da desordem" que se actualiza. A anomia crescente coincide justamente com a criação de um tempo despojado de futuro, de um tempo eternamente presente num espaço uno, indiferente e globalizado. Mas, atrás dela, por de baixo dela, passando despercebida pelo seu triunfo, é talvez esta força que mais poderosamente vigora. A face mais forte de Janus é talvez aquela que se esconde atrás da que é vista das nossas janelas, cegas porque banhadas pela luz do Sol.

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