A "pedrada no charco"

Pelo que se ouve dizer, do recente livro de Manuel Maria Carrilho - que, ao que parece como toda a gente, eu também não li, nem perderei tempo a ler - seria possível afirmar, como uma vez alguém num exame, que a exposição contém coisas boas e originais, sendo de lamentar apenas que as originais não sejam boas nem as boas originais. As originais consistem, ao que parece, numa tentativa de lançar uma "pedrada no charco", fruto de um ressentimento a cuja manifestação pública Portugal - um país em que tudo converge para evitar a emergência de tudo quanto não pertença à "vida habitual" - não está habituado. Mas, apesar de originais, as razões para o protesto não são boas. Carrilho não está preocupado por vivermos num país fechado; num país onde a opinião efectivamente divergente ou simplesmente diferenciada é punida e silenciada debaixo da pluralidade com que se apresentam várias configurações do "mesmo", por entre referências repetidas à ficção de uma "abertura" inexistente; ou num país onde o governo e as oposições estão entregues a uma vasta classe oligárquica em larga medida interesseira, sem hábitos de trabalho nem de pensamento. A sua preocupação é apenas a de que aquilo a que o anterior presidente do meu Sporting chamaria sibilinamente o "sistema" o não terá deixado, desta vez, cumprir as suas aspirações a tornar-se numa espécie de Massimo Cacciari português. Por outro lado, ele tem, como é óbvio e todos sabem, todas as razões para protestar, tendo em conta o "tratamento mediático" de que foi alvo. Só que aqui, apesar de bom, nada do que se possa dizer é novo. É certamente sempre escandaloso observar o modo como alguns jornalistas servem interesses, partidos e amizades, denegrindo pessoas ou instituições, ao evocar, para isso, a "autonomia de uma informação livre" e o seu direito à "determinação de critérios editoriais próprios". Particularmente, em Portugal, é escandaloso deparar-se com a ignorância patente de muitos jornalistas, assente, muitas vezes, menos nas deficiências de não saber que na soberba de não querer saber. Mas a manipulação profissionalizada, a ligação íntima entre os "interesses", "partidos" e "media", a especialização cada vez maior na criação de uma "opinião pública" homogénea, a produção desta opinião sob a ficção de a apresentar como se esta fosse a opinião genuína e livre dos "cidadãos", tudo isso está estudado nas sociedades ocidentais desde os anos 20. Hoje, as sociedades liberais surgidas dos escombros da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria aparecem marcadas pela impossibilidade de, ao limite, distinguir informação e propaganda. Esta é uma das determinações fundamentais para as poder compreender na sua realidade mais íntima e no seu significado mais profundo. Mas, como disse, não me parece que seja esta impossibilidade geral que atormenta a existência do nosso ex-futuro Cacciari.