Caminhos Errantes

domingo, maio 21, 2006

fragilidades

Uma das circunstâncias onde mais imediatamente se vê todas as fragilidades humanas - todos os limites do seu entendimento e todas as fraquezas do seu carácter - é a absoluta impotência de qualquer estudo sério e e demorado perante a força e o poder de uma caricatura. Ocorreu-me isto em conversa com um amigo brasileiro, a propósito da figura de D. João VI.

1 Comments:

  • Neste caso parece-me que a caricatura não anda muito longe da realidade. D. João VI, nascido da união de uma Raínha com o seu tio - imbecilidade biológica que queriam que D. Miguel I repetisse com a sua sobrinha -, não era mau, mas era profundamente incompetente e psicologicamente frágil. Quando estava a preparar a minha dissertação de mestrado tive a oportunidade de ler em Londres a totalidade da correspondência dos embaixadores ingleses em Lisboa com o Foreign Office, entre 1823 e 1834. Uma das coisas que mais me impressionou foi o relato - embaraçado mas exaustivo - que os diplomatas fizeram do comportamento de D. João VI. Tendo-o lido não posso deixar de pensar que a caricatura, necessariamente superficial e maldosa, não anda muito longe da verdade. Por exemplo, o embaixador inglês conta como foi abordado pelo Rei, que queria que ele assinasse um papelinho em como a Inglaterra se comprometia a defendê-lo da Raínha D. Carlota Joaquina que, na mente do Rei, o queria assassinar. D. João VI então andaria com o referido papelinho na algibeira, pronto a mostrá-lo a quem se aproximasse dele com más intenções, como uma espécie de escudo invisível... O embaixador relata tudo isto, tim-tim por tim-tim, com grande embaraço, pedindo instruções ao Foreign Office. E até quando as suas intenções eram boas o Rei acabava por causar enormes danos. Com a vã esperança de que o filho mais velho pudesse reunificar Portugal e o Brasil - mostrando total incompreensão pelas razões que tinham levado ao colapso do Reino Unido -, D. João VI insiste no erro de considerar D. Pedro como herdeiro do Trono português, o que contribuiu para o desastre que se seguiu. Sendo naturalmente bondoso, D. João VI foi o desastre mais completo que nos podia ter acontecido, numa época bem dificil.

    By Blogger Albatroz, at 10:53 da manhã  

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